Hokum: O Pesadelo da Bruxa

Adam Scott encara um terror claustrofóbico e perturbador em um dos filmes independentes mais comentados do ano

CULTURA POP

Warlisson Martins

5/21/20266 min read

Hokum: O Pesadelo da Bruxa

Adam Scott encara um terror claustrofóbico e perturbador em um dos filmes independentes mais comentados do ano

O terror independente vive uma fase curiosa. Enquanto grandes estúdios insistem em fórmulas previsíveis e universos compartilhados, cineastas menores têm apostado em histórias mais psicológicas, desconfortáveis e emocionalmente densas. É justamente nesse espaço que Hokum: O Pesadelo da Bruxa surge como uma das estreias mais comentadas de 2026, colocando o nome de Damian McCarthy ainda mais forte entre os diretores contemporâneos do horror. O longa estreou globalmente cercado de expectativa, principalmente após o sucesso cult de Oddity e Caveat, trabalhos anteriores do diretor, e rapidamente chamou atenção pela atmosfera sufocante, narrativa misteriosa e pela atuação intensa de Adam Scott. (Roger Ebert)

Mas será que Hokum realmente merece toda a atenção? A resposta curta é: em grande parte, sim — ainda que não seja um filme perfeito.

Um terror que aposta no desconforto, não no excesso

Em uma época em que muitos filmes de horror parecem competir para ver quem entrega mais sustos por minuto, Hokum segue outro caminho. O filme prefere o silêncio, o isolamento e a sensação de ameaça constante.

A história acompanha Ohm Bauman, um escritor de terror interpretado por Adam Scott, que viaja até uma remota hospedaria rural na Irlanda para espalhar as cinzas de seus pais no lugar onde eles viveram momentos felizes durante a lua de mel. O problema é que o hotel não é apenas decadente e estranho: rumores locais apontam que uma antiga bruxa estaria aprisionada em uma suíte interditada há séculos. (The Guardian)

Parece uma premissa simples, mas Damian McCarthy transforma essa ideia em algo muito mais ambíguo e inquietante.

O diretor constrói tensão usando corredores vazios, madeira rangendo, silêncio prolongado, quartos apertados e personagens que parecem esconder segredos. Em vez de assustar imediatamente, ele faz o espectador sentir uma crescente paranoia.

É aquele tipo de filme em que você começa a desconfiar de cada ruído.

Adam Scott entrega talvez sua atuação mais sombria

Muita gente conhece Adam Scott por papéis mais cômicos ou pela série Severance, mas Hokum mostra um lado muito mais áspero do ator.

Seu personagem é irritadiço, arrogante, emocionalmente destruído e, muitas vezes, difícil de gostar.

Isso poderia ser um problema — mas acaba funcionando.

Ohm não é um “herói tradicional”. Ele é alguém corroído pelo luto, alcoolismo, ressentimento e memórias mal resolvidas. Adam Scott interpreta essa bagunça emocional sem exageros melodramáticos, transmitindo um cansaço psicológico que combina perfeitamente com o clima do filme. Diversas críticas apontaram sua atuação como um dos grandes trunfos do longa, justamente porque ele sustenta a tensão quase sozinho durante boa parte do tempo. (The Guardian)

Existe algo particularmente desconfortável em observar Ohm tentando racionalizar acontecimentos absurdos enquanto sua sanidade parece lentamente escorrer pelos dedos.

Em muitos momentos, o horror funciona porque estamos presos à perspectiva dele.

E isso é extremamente claustrofóbico.

Damian McCarthy prova que não foi “sorte” após Oddity

Se você acompanha cinema de terror independente, provavelmente já ouviu falar de Damian McCarthy.

Depois da recepção positiva de seus filmes anteriores, havia um medo razoável: será que o diretor conseguiria repetir a dose?

Aparentemente, sim.

McCarthy continua apostando em seu estilo favorito: terror psicológico, folclore local, espaços isolados e suspense baseado em sugestão.

Em Hokum, ele trabalha a câmera de maneira quase arquitetônica.

O hotel parece um personagem.

Corredores estreitos, portas interditadas, quartos antigos e áreas abandonadas criam uma sensação permanente de prisão. Mesmo quando nada está acontecendo, o ambiente parece ameaçador. Isso ajuda a explicar por que muitos críticos classificaram o filme como um dos terrores atmosféricos mais fortes do ano. (Roger Ebert)

Ainda assim, o diretor também assume riscos.

O filme mistura terror sobrenatural, drama psicológico, mistério, humor sombrio e até um toque de folk horror irlandês. Para alguns espectadores, isso torna tudo mais rico. Para outros, pode parecer excessivamente ambicioso ou até confuso. (the AU review)

O verdadeiro trunfo: a atmosfera claustrofóbica

Se existe um aspecto praticamente incontestável em Hokum, é sua atmosfera.

Poucos filmes recentes conseguem gerar tensão usando tão pouco.

Há cenas inteiras construídas apenas com iluminação baixa, silêncio e expectativa.

O espectador constantemente espera que algo horrível aconteça.

Às vezes acontece.

Às vezes não.

E esse “não saber” se torna parte do terror.

A fotografia explora tons frios e decadentes, enquanto a trilha sonora trabalha ruídos discretos e sons metálicos desconfortáveis que ampliam a sensação de ameaça invisível. A direção de arte transforma o hotel em um espaço quase amaldiçoado, reforçando o sentimento de aprisionamento emocional do protagonista. (Time Out Worldwide)

Esse aspecto aproxima Hokum de filmes como The Shining e de certos terrores psicológicos modernos que preferem destruir a mente do espectador lentamente.

Recepção inicial: crítica gostou — público ficou dividido

A estreia global colocou Hokum rapidamente no radar dos cinéfilos, especialmente fãs de horror indie.

A recepção inicial da crítica foi bastante positiva, com elogios frequentes à direção, à atmosfera e à atuação de Adam Scott. Diversas análises destacaram o filme como uma confirmação de Damian McCarthy como um dos nomes mais interessantes do terror atual. (Roger Ebert)

Já entre espectadores, a reação parece um pouco mais dividida.

Quem gosta de horror lento (“slow burn”) e tensão psicológica tende a amar.

Quem entra esperando sustos constantes ou um terror mais comercial pode sair frustrado.

Muita gente elogiou jumpscares específicos e a sensação de medo constante, mas parte do público reclamou do ritmo lento e da narrativa excessivamente fragmentada. (Reddit)

E aqui existe um ponto importante:

Hokum não quer agradar todo mundo.

Ele quer incomodar.

Prós e contras de Hokum: O Pesadelo da Bruxa

Pontos positivos

Atmosfera extremamente opressiva — um dos terrores mais tensos do ano.

Adam Scott em ótima forma dramática — talvez sua performance mais sombria até agora.

Direção confiante de Damian McCarthy — domínio técnico impressionante para um terror independente.

Boa mistura entre folclore e terror psicológico — evita parecer genérico.

Sustos eficientes quando aparecem — sem exagerar na quantidade. (knockouthorror.com)

Pontos negativos

Ritmo lento pode afastar parte do público.

Narrativa ocasionalmente convoluta — algumas ideias parecem excessivas.

Nem todos os mistérios recebem explicações satisfatórias.

Humor sombrio às vezes quebra a tensão para quem busca horror puro. (the AU review)

Vale a pena assistir?

Se você gosta de terror psicológico, folk horror, histórias claustrofóbicas e filmes que trabalham ansiedade em vez de explosões constantes de susto, a resposta é sim.

Hokum talvez não seja um blockbuster de horror fácil de digerir, mas entrega algo raro: personalidade.

Ele é estranho, sombrio, desconfortável e, em certos momentos, genuinamente perturbador.

Damian McCarthy não tenta reinventar completamente o gênero — mas mostra domínio suficiente para transformar elementos conhecidos em algo memorável.

No fim das contas, talvez o maior mérito do filme seja esse:

Você sai do cinema ainda pensando naquele hotel.

Naquela suíte interditada.

Naquela sensação horrível de que alguma coisa estava errada o tempo inteiro.

⚠️ AVISO: A PARTIR DAQUI HÁ SPOILERS DE HOKUM: O PESADELO DA BRUXA

Se você ainda não assistiu ao filme, pare aqui.

Explicando a trama e o final de Hokum

Boa parte do peso narrativo de Hokum está menos na bruxa e mais em Ohm.

Ao longo do filme, fica cada vez mais evidente que o horror sobrenatural serve como espelho do trauma emocional do protagonista. A suíte interditada, os desaparecimentos e as visões funcionam também como metáforas para memórias reprimidas, culpa e o relacionamento mal resolvido com seus pais. (Tom's Guide)

O desaparecimento de Fiona muda a estrutura do filme e transforma Ohm quase em um investigador involuntário. Conforme ele invade espaços proibidos e ignora alertas locais, McCarthy mistura realidade e paranoia, fazendo o espectador questionar constantemente o que é assombração e o que pode ser deterioração mental. (Time Out Worldwide)

O terceiro ato revela que a “bruxa” é mais complexa do que uma simples criatura sobrenatural, conectando lendas locais, violência humana e culpa emocional em uma conclusão deliberadamente ambígua — uma escolha que certamente vai dividir opiniões.

Para alguns, genial.

Para outros, frustrante.

Mas talvez seja justamente essa ambiguidade que faz Hokum continuar assombrando a cabeça do espectador depois dos créditos. (Roger Ebert)

Contato

Fale conosco para dúvidas e sugestões

https://allmix.net/privacy-policy

Email

allmixpage@gmai.com

© 2025. All rights reserved.